Literatura árabe produzida no Brasil – mitos do mundo invisível


Autora: Beatriz Negreiros Gemignani

09/05/2020

Os primeiros imigrantes árabes que chegaram ao Brasil viram aqui um local de inspiração e desenvolvimento cultural. A literatura da imigração florescida aqui iria influenciar a literatura produzida posteriormente no mundo árabe. Conheça os mitos pré-islâmicos do mundo invisível nos poemas de Chafic Maluf, poeta libanês que veio a São Paulo em 1926, estabelecendo-se na cidade.


Literatura árabe produzida no Brasil – mitos do mundo invisível

No final do século XIX chegavam os primeiros imigrantes árabes ao Brasil, e com eles iria florescer uma nova literatura árabe, a literatura do mahjar (o local da imigração). Após séculos sob o domínio turco, os árabes que outrora tiveram uma grande produção literária encontram novo solo de inspiração. A literatura produzida aqui seguia o recente renascimento literário árabe – o movimento conhecido em árabe como nahḍa, a renovação da literatura árabe pela exploração de novas temáticas, próprias ao mundo moderno. Ainda assim, havia a necessidade de um ambiente neutro para o desenvolvimento dessa literatura, longe da ameaça turca e das potências europeias.

A América era vista como uma terra mítica, onde tudo seria possível, mesmo a libertação da pátria. Os árabes no Brasil fundaram sociedades literárias e construíram uma imprensa própria, promovendo o desenvolvimento do renascimento cultural árabe. A sociedade literária mais importante na América do Sul foi a Al‘uṣba Alandalusiyya (A Liga Andaluza), criada em São Paulo em 1932. O nome da associação literária Liga Andaluza foi inspirado pelo fato de os árabes considerarem o Brasil como Alandalus Aljadid (o “Novo Alandalus”), na medida em que aqui viviam pessoas originárias da península Ibérica, território onde seus antepassados árabes haviam sido assimilados com a população, durante os quase oito séculos de domínio árabe. Logo, eles estariam assim redescobrindo Alandalus. Esse novo movimento literário do mahjar iria posteriormente influenciar e revitalizar a literatura árabe produzida nos próprios países árabes, que logo iriam conquistar sua independência.

Os poetas do Novo Alandalus viam na experiência inovadora de seus versos uma retomada do esplendor da poesia árabe oriental do antigo Alandalus da península Ibérica. Entre esses poetas destaca-se Chafic Maluf, membro da Liga Andaluza, cuja obra-prima é Abkar (primeira edição de 1936, com seis cantos, e segunda edição de 1949, com doze cantos), na qual resgata os mitos pré-islâmicos do mundo invisível. Nessa epopeia o poeta viaja a Abkar, denominação pré-islâmica do mundo subterrâneo, terra obscura onde vivem os gênios, em árabe jinn, e outras criaturas, entidades incorpóreas dotadas de poder mágico, às quais se atribuía todo tipo de intervenção benéfica ou maléfica na vida humana. Os poetas são os senhores de Abkar: seus espíritos são inspirados pelos gênios, criaturas fantásticas capazes de levar o homem a uma refinada percepção da realidade, que ao final propicia a poesia.

O oitavo canto de Abkar, intitulado “A sabedoria dos adivinhos”, que aparece em sua segunda edição de 1949, é composto por quatro poemas que tratam de duas famosas figuras mitológicas pré-islâmicas, os adivinhos Chik e Satih, os quais, segundo a tradição, nasceram no mesmo dia. O primeiro é constituído de uma só metade de corpo, daí seu nome chik, que em árabe significa “metade”, tem uma só mão, perna e olho; Satih, por outro lado, é descrito como uma carne sem ossos. Para conhecer um pouco desse mundo mágico e da produção poética árabe em solo brasileiro, leia a seguir a tradução dos dois poemas do mencionado canto dedicados ao adivinho Chik. Os poemas são escritos em árabe padrão e se caracterizam pelo uso do verso tradicional, composto de dois hemistíquios, com rima e métrica regulares.

O adivinho Chik

Chik, o adivinho, é dotado de um aspecto

      que o aprisiona, ele só, como quer o Criador

Deus o cortou de cima a baixo

      e lhe concedeu viver na continuidade do corpo

a Ele louva por lhe dar este jeito:

      metade de rosto, uma só perna, uma só mão.

A eternidade não lhe é senão frívola

      os séculos não lhe são senão desperdício

que em sua gruta se dissipam

      e se apagam na escuridão dos tempos.

                ...

Ó mais sábio dos adivinhos no mundo

      que nele instalou firmemente o medo

meu adivinho de Abkar, dá-me sabedoria        

      para eu dispor nas demandas do amanhã

daqui a enviarei a todos os mortais

      disposta nas nuvens da abóboda celeste.

Que a onda da predestinação me engula ou

      que eu a escreva com fogo sobre a espuma.

 

O discurso do adivinho Chik

Disse Chik: O senhor dos mortais

      ao ver as tribos desaparecerem

não me dotou de riquezas

      apenas de uma perna e uma mão

                   ...

Ando aos saltos pelo chão

      Deus me mostra o caminho correto

se quiser subir ou descer

      subo e desço a cada geração

 

O uno eterno não me prejudicou

      ao me conceder só metade de corpo

continua a me guiar com Sua mão

      de duas não tenho necessidade

privou-me dos membros corrompidos

      e prosperaram os demais.

Serão vantajosas duas mãos se uma

      destrói o que a outra constrói?

 

Se não estiverem os dois olhos cheios

      ambos com uma sabedoria aberta

 

Mas ah! Um olho ilumina o outro

      se nenhum estiver fechado

 

Falo com metade de língua e boca

      e nada que escapa me prejudica

 

Sei de minha longa experiência que não

      chego à sabedoria senão pelo silêncio

 

Uma parte do coração sente

      e a outra é como se fosse pedra

 

Creio que a metade de fogo

      era coração metade preto.

                   ...

Chik exaltou o Criador, e disse:

      Ó poeta, não tenha piedade de mim!

Louvemos a Deus, o símbolo da perfeição

      pois sem a imperfeição eu não seria perfeito.